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Nova Lima nunca teve tanto dinheiro. Em 2025, a Prefeitura arrecadou R$ 1,6 bilhão, quase três vezes o que arrecadava em 2014. Quem mora na Regional Noroeste, do Jardim Canadá a Macacos, do Vale do Sol à Lagoa dos Ingleses, conhece outra realidade: ônibus que demora, rodovia parada, carretas dentro dos bairros, casas sem rede de esgoto e o básico longe de casa. Enquanto a Câmara discute o novo Plano Diretor, a pergunta que fica é para quem esse dinheiro tem servido.

Em resumo

A Prefeitura arrecadou R$ 1,6 bilhão em 2025 e recebeu R$ 1,4 bilhão da mineração entre 2014 e 2025.

Em 2025, de cada R$ 100 gastos, cerca de R$ 3 foram para saneamento e R$ 3 para transporte. Para fomentar outros negócios, menos de R$ 1.

O projeto e as contas apontam para uma economia que favorece só dois setores: as construtoras e a mineração.

O texto do novo Plano Diretor não cita a palavra "Noroeste" nem a compensação da mineração, e não traz meta para o ônibus na região.

A região tem vocação para turismo, esportes ao ar livre e gastronomia, que o projeto reconhece no papel e não apoia no zoneamento nem no orçamento.

Na pesquisa do valedosol.org, só 3% querem aprovar o projeto como está.

Nunca houve tanto dinheiro

A arrecadação da Prefeitura saiu de R$ 590 milhões em 2014 para R$ 1,6 bilhão em 2025. Só da CFEM, a compensação que as mineradoras pagam pela exploração do minério, entraram R$ 1,4 bilhão nesses doze anos. Nova Lima tem ainda a maior renda por pessoa do Brasil, segundo o Censo 2022 do IBGE.

Na mensagem que acompanha o projeto do novo Plano Diretor, a Prefeitura diz que o texto vai garantir "que o desenvolvimento econômico caminhe lado a lado com a justiça social, o equilíbrio ambiental e a qualidade de vida de todos os cidadãos nova-limenses". Promete "prioridade para o transporte coletivo" e "controle do adensamento populacional atrelado à real capacidade de suporte da infraestrutura instalada".

O que falta na rua

A Regional Noroeste reúne 26 bairros e localidades, segundo o diagnóstico técnico da revisão. Os problemas que os moradores relatam se repetem de um bairro a outro:

  • Ônibus. Desde que a discussão do Plano começou, a falta de transporte público é a queixa mais ouvida entre os moradores. Quem tem carro fica parado na BR-040 e na subida para BH, entre o Viaduto do Mutuca e o BH Shopping.
  • Carretas dentro dos bairros. Veículos da mineração e das empresas que a servem cortam bairros residenciais para encurtar caminho, mesmo onde a passagem de veículos pesados é proibida.
  • Casas que viram alojamento. No licenciamento estadual da ampliação das minas vizinhas ao Vale do Sol, a previsão é de até 400 trabalhadores no pico, sem alojamento próprio: eles ficariam em "casas alugadas ou hospedarias na região". O mesmo parecer registra o problema das casas alugadas para alojar funcionários.
  • Esgoto. Em 2007, o Plano Diretor ainda em vigor já mandava reduzir a contaminação da água por infiltração de esgoto, "particularmente no Jardim Canadá e Vale do Sol". No Vale do Sol, 98% das casas ainda usam fossa, e a rede que existe está desligada.
  • Barulho e risco. A região conhece os casos: usina de concreto na beira da rodovia, casa de eventos com som até a madrugada, pátios de máquinas, um crematório que só não se instalou por causa da mobilização dos moradores e, em Macacos, famílias que já tiveram de deixar suas casas por risco de barragem.
  • O básico longe de casa. Para ir à farmácia, ao médico, à escola ou à creche, muita gente precisa pegar a rodovia. No seminário de 28/09, moradores pediram escola pública, unidade de saúde e outros serviços para a população local.

Para onde vai o dinheiro

Os valores abaixo são os que a própria Prefeitura declara ao Tesouro Nacional, no sistema SICONFI:

  • Em 2021, a Prefeitura recebeu R$ 198 milhões da mineração e gastou R$ 6 milhões com saneamento.
  • Em 2025, gastou R$ 52 milhões com saneamento e R$ 48 milhões com transporte, cerca de R$ 3 a cada R$ 100 em cada área.
  • No mesmo ano, foram R$ 7 milhões para comércio e serviços, todos em turismo, e R$ 6,5 milhões para fomento ao trabalho. Somados, menos de R$ 1 a cada R$ 100 gastos.
  • A lei federal recomenda aplicar, "preferencialmente", pelo menos 20% da CFEM em diversificação econômica, desenvolvimento mineral sustentável e desenvolvimento científico e tecnológico. Em 2025, isso daria R$ 34 milhões. Somando comércio e serviços, fomento ao trabalho e ciência e tecnologia, a Prefeitura declarou R$ 25 milhões.

A CFEM não é carimbada para uma área específica. A comparação mostra a ordem de grandeza: o dinheiro que entra cresce muito mais depressa do que o que chega ao dia a dia de quem mora na região.

Gráfico de barras: em 2025, Nova Lima recebeu R$ 171,2 milhões de CFEM e gastou R$ 52,4 milhões com saneamento, R$ 47,8 milhões com transporte, R$ 7,4 milhões com comércio e serviços (turismo) e R$ 6,5 milhões com fomento ao trabalho.

O que o novo Plano oferece

O projeto de lei 2723/2026 é o texto que vai orientar a cidade pelos próximos dez anos. Para a Regional Noroeste, ele traz:

  • Nenhuma menção à regional. A palavra "Noroeste" não aparece no texto da lei. Para o transporte coletivo, há só diretrizes gerais, como "priorizar o uso do transporte público coletivo", "especialmente na Sede municipal". Não há linha, meta nem prazo para a região.
  • A beira da BR-040 para grandes empreendimentos. O projeto aponta as áreas ao longo da rodovia para "distritos industriais, condomínios empresariais e demais empreendimentos imobiliários". Ao lado do Vale do Sol, abre uma área vazia, maior que a parte residencial do bairro, para indústria de grande porte e grandes equipamentos.
  • Sem limite geral de altura. O teto só existe em pontos específicos.
  • A decisão sobre o vizinho fica para depois. A lista do que incomoda a vizinhança será feita por decreto da Prefeitura, depois da votação.
  • Nenhuma palavra sobre a CFEM. A "transição pós-mineração" aparece só como intenção, sem meta, prazo nem fonte de recursos.

Uma economia para dois setores

As contas da Prefeitura e o texto do projeto apontam na mesma direção: o crescimento de Nova Lima favorece só dois setores, as construtoras e incorporadoras de grandes empreendimentos e a mineração. Os demais ficam de fora.

  • As construtoras ganham terreno e regras. O projeto aponta a beira da BR-040 para "condomínios empresariais e demais empreendimentos imobiliários", incentiva o adensamento, não fixa limite geral de altura e permite juntar lotes sem limite de área e sem consultar os vizinhos. Ao lado do Vale do Sol, marca uma área vazia, maior que a parte residencial do bairro, para "projetos estratégicos".
  • O resultado já se vê no eixo. A Vila da Serra e o Vale do Sereno concentram os lançamentos de alto padrão, e as prefeituras de BH e de Nova Lima reconhecem um "problema crônico de engarrafamento" no entorno do BH Shopping. Uma lei de 2010 que liberou prédios sem limite de altura no Vale do Sereno foi depois anulada pela Justiça. Ao sul, um único condomínio lançado em 2025 na Lagoa dos Ingleses tem 692 lotes e valor de vendas acima de R$ 1 bilhão, e o trânsito de todos eles desce pela mesma BR-040.
  • A mineração move a economia, e o projeto não trata do retorno. A indústria, que inclui a mineração e a construção civil, respondia por mais da metade do PIB de Nova Lima (52,64%, dados do IBGE de 2017 citados no licenciamento estadual). O projeto mantém os complexos minerários numa zona própria, não cita a CFEM e trata a transição pós-mineração só como intenção.
  • Os outros setores ficam com quase nada. Em 2025, a Prefeitura gastou R$ 7 milhões com comércio e serviços, todos em turismo, e R$ 6,5 milhões com fomento ao trabalho. O comércio de bairro, os serviços, o turismo de natureza e o transporte coletivo não têm no projeto área, meta nem recurso próprios.

Para quem mora na região, a promessa de desenvolvimento não se confirma. A arrecadação cresce, os grandes beneficiados são as construtoras e a mineração, e a conta fica com o morador: trânsito parado, esgoto no chão, barulho, carretas e casas transformadas em alojamento.

O custo de morar perto da riqueza

A mineração e o mercado imobiliário de alto padrão também encarecem a vida de quem não trabalha neles. Um estudo do Ipead, instituto de pesquisas econômicas ligado à UFMG, encomendado pela associação dos municípios mineradores e divulgado em setembro de 2025, mostrou que morar numa cidade mineradora custa até 10% mais do que numa cidade parecida sem mineração. Em Mariana, a moradia sai cerca de 27% mais cara, e quem ganha um salário mínimo perde até R$ 1,8 mil por ano em poder de compra. Segundo o estudo, os salários mais altos ligados à mineração puxam os preços para cima.

Em Nova Lima, a pressão vem dos dois lados. O metro quadrado da cidade era o mais caro entre nove cidades pesquisadas pela Loft em 2022, praticamente o dobro do de Belo Horizonte. E o licenciamento das minas vizinhas ao Vale do Sol prevê "aumento no custo de vida, da habitação" com a chegada de trabalhadores de fora. Quem paga mais caro para morar e consumir, sem ganhar a renda que puxa os preços, é o pequeno comerciante, o prestador de serviço, o trabalhador local e o aposentado.

A vocação que a região já tem

Quem veio morar na Regional Noroeste veio, antes de tudo, pela qualidade de vida e pela natureza. Um morador resumiu na pesquisa do valedosol.org: "Quando vim morar aqui, foi pra estar perto da natureza, sair da vida urbana, trânsito, barulho, queria tranquilidade, como a maioria dos moradores daqui. Qualidade de vida." Um estudo publicado pela revista de geografia do IBGE em 2022 aponta o mesmo movimento em todo o Vetor Sul: moradores que trocaram os centros urbanos por áreas afastadas em busca de "melhor qualidade de vida" e de proximidade com a natureza. É esse patrimônio que sustenta a região, e é ele que já gera trabalho e renda além da mineração:

  • Trilhas e esportes ao ar livre. Por decreto municipal, Nova Lima tombou mais de 380 km de trilhas, e o mapa de potencial turístico do próprio projeto de lei marca essas trilhas em volta do Vale do Sol, como a que liga o bairro a Pasárgada. O Parque Estadual da Serra do Rola-Moça recebe provas de corrida e de mountain bike, e uma reportagem sobre a etapa de 2024 apresenta Nova Lima como "berço nacional do MTB".
  • Gastronomia. Em Macacos, o festival Gastrô Macacos reuniu 15 estabelecimentos em 2025, numa parceria do Sebrae com a Prefeitura, para firmar o distrito como destino de turismo ecológico, gastronômico e de experiência. No Jardim Canadá, cervejarias artesanais e restaurantes formam outro polo.
  • Natureza e água. A Estação Ecológica de Fechos, o Parque do Rola-Moça e a Serra da Calçada protegem mananciais e paisagens que atraem visitantes e moradores.
  • Um perfil consciente. Na pesquisa, 88% querem que o órgão ambiental seja ouvido antes de novos empreendimentos, e os recados pedem coleta seletiva, ruas arborizadas, controle da velocidade e respeito às reservas.

O próprio projeto reconhece essa vocação. Manda "difundir e consolidar os segmentos de turismo histórico-cultural, gastronômico, de esportes e aventura", "incorporar a vocação natural de Nova Lima para os esportes de aventura" às ações de esporte e lazer e fomentar a agricultura familiar e a produção artesanal de alimentos. Mas o zoneamento da regional aponta para outro lado: condomínios e empreendimentos imobiliários na beira da BR-040, indústria e grandes equipamentos ao lado do Vale do Sol, e trilhas tombadas atravessando áreas que o mesmo projeto destina à mineração. E o orçamento confirma a prioridade: em 2025, todo o gasto da Prefeitura com comércio e serviços foi de R$ 7 milhões, aplicados em turismo.

Mapa do entorno do Vale do Sol com as trilhas oficiais do Anexo VI, em azul, sobre o zoneamento do Anexo X do PL 2723/2026: as trilhas cercam o bairro, cruzam a Estação Ecológica de Fechos e a área de mineração (ZAM) a leste, e passam pela ZEPE ao sul.

Adensar e industrializar a região destrói justamente o que traz moradores e visitantes: a natureza, o silêncio, as trilhas e a paisagem.

Por que diversificar

Um estudo da UFMG de 2023 sobre os sete municípios mineiros que mais recebem CFEM, Nova Lima entre eles, concluiu que essas cidades continuam especializadas na mineração e em atividades ligadas a ela, como a construção civil e os transportes, com "poucas oportunidades de negócios e empregos em outros setores". O estudo reconhece que Nova Lima tem os melhores indicadores sociais do grupo, mas aponta a vulnerabilidade de todas às oscilações do preço do minério.

O risco já se viu em outras cidades. Em Mariana, depois do rompimento da barragem em 2015, o então prefeito declarou: "A mineração representa 80% da nossa arrecadação", e admitiu que "a nossa cidade não trabalhou na diversificação econômica". Em Itabira, onde a mineradora prevê o fim da extração para 2031, cerca de 10 mil empregos e 80% do orçamento estão em jogo. A lei federal já recomenda aplicar parte da CFEM para diversificar a economia. O novo Plano Diretor de Nova Lima não cita a CFEM.

O que dizem os moradores

A pesquisa do valedosol.org sobre a revisão do Plano Diretor está aberta a toda a Regional Noroeste. Até 01/10/2026, 137 pessoas responderam, todas do Vale do Sol. A participação é voluntária, e o resultado não é uma amostra estatística, mas mostra o que pensa quem respondeu:

  • 92% querem limitar a altura das construções, e 83% são contra prédios de apartamentos.
  • 85% querem rede de esgoto funcionando antes de liberar comércio maior ou mais moradias.
  • 86% querem que a própria lei diga quais atividades incomodam a vizinhança, em vez de deixar isso para decreto.
  • 88% querem que o órgão que cuida das reservas ambientais vizinhas seja ouvido antes de novos empreendimentos.
  • As maiores preocupações são prédios altos (54%), carretas e veículos da mineração nas ruas do bairro (48%) e a mineração e suas barragens (46%).
  • Só 8% dizem conhecer bem a revisão. 69% não souberam das oficinas e audiências, e só 4 pessoas participaram de alguma. A Prefeitura foi fonte de informação para 4% dos que responderam, e a Câmara para 2%.
  • Só 3% querem aprovar o projeto como está. Outros 30% preferem adiar a votação, 26% rejeitar e refazer, e 15% aprovar com mudanças.

Entre os recados que os participantes autorizaram publicar:

"Nova Lima vive forte pressão da mineração e da construção civil."

"Coloquem a sociedade acima dos interesses econômicos."

"Arrumem primeiro o que já não está de acordo ou funcionando, para depois liberar mais atividades, construção de prédios, etc."

"Precisamos desenvolver a região no entorno do Vale do Sol, junto com os acessos e o transporte público."

Mora na Regional Noroeste? Responda à pesquisa do valedosol.org sobre o novo Plano Diretor. Leva 3 minutos.

Responder à pesquisa

O que os moradores pedem

Os pedidos que aparecem na pesquisa, nos recados e no seminário de 28/09 cabem numa lista curta:

  1. Ônibus de verdade: linhas, horários e prazo para a Regional Noroeste, no plano de mobilidade que a lei federal obriga a cidade a ter.
  2. Estrutura antes de crescer: nada de novos prédios, condomínios ou grandes empreendimentos no eixo da BR-040 sem estudo do trânsito e sem solução de transporte.
  3. Esgoto primeiro: rede funcionando antes de mais moradias e de comércio maior.
  4. O dia a dia perto de casa: farmácia, mercearia, padaria, escola, creche e saúde no próprio bairro, com estacionamento e parada de ônibus, sem atividades de alto incômodo.
  5. Trabalho além da mineração: apoio ao turismo de natureza e de aventura, às trilhas tombadas, à gastronomia, ao comércio e aos serviços locais, à cultura e a quem empreende na região, com área e recurso no Plano.
  6. O dinheiro da mineração de volta para a região: prioridade para saneamento, transporte e serviços nas áreas impactadas, com a prestação de contas anual que a lei federal já exige.
  7. Carretas fora dos bairros: a proibição cumprida e a mineração usando as próprias estradas.
  8. Casa é casa: nada de alojamento de trabalhadores em quadras residenciais.
  9. Altura limitada e regras para a junção de lotes.
  10. Reservas protegidas: regras para o entorno de Fechos, do Rola-Moça e da Serra da Calçada.
  11. Lei clara, votada na Câmara: o que pode abrir ao lado de casa definido na lei, e não em decreto.
  12. Tempo para corrigir: se não der para corrigir o projeto antes da votação, adiar a votação.

Como participar

Audiência pública da Regional Noroeste: hoje, 01/10/2026, às 19h, na Escola Estadual Maria Josefina Sales Wardi (Rua Ontário, 810, Jardim Canadá). A inscrição para falar é feita no local, das 18h às 18h40.

Por escrito: opiniões e sugestões podem ser enviadas para planodiretor@cmnovalima.mg.gov.br.

Pesquisa: responda em valedosol.org/pesquisa-plano-diretor e convide os vizinhos de todos os bairros da regional.

De onde vêm os números