Ir para o conteúdo

O Vale do Sol faz divisa direta, ao norte, com a Estação Ecológica Estadual de Fechos — unidade de conservação de proteção integral cujos mananciais abastecem, segundo as fontes, entre 200 mil e 280 mil pessoas na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Essa vizinhança direta é o que a lei federal do SNUC chama de zona de amortecimento — a faixa de entorno criada para conter o impacto da cidade sobre a área protegida. Na revisão do Plano Diretor de Nova Lima, essa faixa não aparece.

Uma busca simples, um resultado direto

O PL 2723/2026 tem 324 artigos. Buscando o texto integral, a expressão "zona de amortecimento" não aparece nenhuma vez. O nome "Fechos" também não. A única ocorrência da palavra "amortecimento" está no art. 151, e não tem nada a ver com meio ambiente — trata do amortecimento da descarga de água de chuva numa caixa de contenção.

Nomeada no mapa, ausente na lei

O projeto não ignora que a Estação Ecológica existe. O Anexo V — o Mapa de Unidades de Conservação que acompanha o PL — lista, na legenda, a "EE Estadual de Fechos" e também o "PNM Fechos" (o Parque Natural Municipal de mesmo nome). A lei sabe que essas áreas protegidas estão lá, no papel do mapa.

O que falta é o próximo passo: em nenhum artigo o PL aciona o regime que a legislação federal criou especificamente para o entorno dessas unidades. A zona de amortecimento não é uma figura decorativa — é um instituto da Lei federal nº 9.985/2000, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), com comandos concretos.

Cercada por todos os lados

O mapa acima mostra o que o texto da lei não diz: a Estação Ecológica de Fechos está cercada.

Ao norte, a mineração Mar Azul, da Vale S.A. As barragens B3/B4 dessa mina chegaram ao nível máximo de emergência em 2019, quando mais de 100 famílias tiveram que deixar suas casas preventivamente. Em 15 de dezembro de 2022, a Vale assinou com o Ministério Público estadual, a Defensoria Pública, o Ministério Público Federal e a Prefeitura de Nova Lima um acordo de R$ 500 milhões para reparar os danos. A obra de desativação da barragem só terminou em maio de 2024.

A leste, a proposta de expansão da cava da Mina Tamanduá — a mesma cujo estudo de impacto ambiental aponta rebaixamento de aquíferos e efeito sobre a própria Estação Ecológica, e cuja localização a Assembleia Legislativa de Minas Gerais já registrou oficialmente como dentro da zona de amortecimento de Fechos.

Mineração ao norte e a leste, esgoto sem tratamento a noroeste, adensamento urbano ao sul — a Estação Ecológica de Fechos é pressionada dos quatro lados ao mesmo tempo.

A noroeste, o Jardim Canadá. A própria Copasa reconhece que cerca de 40% de todo o esgoto gerado no bairro não é tratado, e a ARSAE/MG já registrou lançamento clandestino desse esgoto em cursos d'água da região — inclusive em pontos do Córrego Fechos, que nasce dentro da unidade de conservação.

E é para essa mesma estação de tratamento sobrecarregada que o poder público propõe mandar o esgoto do Vale do Sol: o plano de saneamento do bairro prevê ligar sua rede à estação elevatória que conduz à ETE do Jardim Canadá, e ampliar essa ETE para receber o efluente adicional.

Ao sul, o próprio Vale do Sol — pressionado agora por um quarto vetor: a revisão do Plano Diretor que nunca menciona a zona de amortecimento de Fechos, mas classifica o bairro inteiro como área de adensamento e elimina a única gradação de porte que limitava o comércio na faixa de ZOCS.

O que esse instituto obriga — e que o Plano Diretor deixa de fora

A lei do SNUC diz três coisas que interessam diretamente ao Vale do Sol:

  • o órgão que administra a unidade de conservação — no caso, o Instituto Estadual de Florestas (IEF) — deve estabelecer normas específicas para a ocupação e o uso da zona de amortecimento (art. 25, § 1º);
  • instalar rede de esgoto ou qualquer infraestrutura urbana na zona de amortecimento de uma unidade de proteção integral depende de aprovação prévia desse órgão gestor (art. 46 e parágrafo único);
  • e a Resolução CONAMA nº 428/2010 dá a esse mesmo órgão o poder de exigir estudos complementares, declarar um projeto incompatível ou simplesmente indeferi-lo, quando o empreendimento afeta a unidade ou seu entorno.

Nenhuma dessas etapas aparece no licenciamento urbanístico que o PL desenha para o Vale do Sol.

Um bairro sem rede de esgoto, classificado para adensar

A omissão pesa porque se soma a outra: o Vale do Sol não tem rede coletora de esgoto — situação que já constava do Plano Diretor de 2007 — e mesmo assim o projeto o classifica inteiro como macrozona de adensamento urbano. Ao redor do bairro, incluindo a região de Fechos, a classificação é outra: uso sustentável ou utilidade rural. A fronteira entre adensar e conservar passa exatamente na borda do Vale do Sol.

As diretrizes de saneamento do PL são só programáticas — "incentivar tecnologias", "promover o cadastramento" de fossas e biodigedores. Não existe uma regra que condicione a aprovação de um uso que gere efluente à existência de rede coletora ou de tratamento.

O essencial

A Estação Ecológica de Fechos está no mapa oficial do Plano Diretor, mas a zona de amortecimento que a lei federal criou para proteger seu entorno não está em nenhum dos 324 artigos. Enquanto isso, o Vale do Sol — sem rede de esgoto — é classificado para adensar.

Uma unidade que o próprio Estado disputa

A Estação Ecológica de Fechos foi criada pelo Decreto estadual nº 36.073, de 27 de setembro de 1994, com 602,95 hectares. Antes disso, desde 1982, a área já tinha outra camada de proteção — a Área de Proteção Especial (APE) Fechos, que também submetia o parcelamento do solo ali a exame e anuência prévia do Estado. Essa camada foi revogada em 27 de junho de 2024, sob a justificativa de que a área já estava coberta pela própria Estação Ecológica e pela APA Sul da RMBH. A partir daquela data, a proteção do entorno de Fechos passou a depender do regime do SNUC — exatamente o regime que o Plano Diretor em tramitação deixou de disciplinar.

O tamanho da unidade também está em disputa, e o motivo interessa diretamente ao debate sobre o entorno do Vale do Sol.

A deputada por trás do projeto

O Projeto de Lei 96/2019, que propunha ampliar a Estação Ecológica de Fechos em 222 hectares, incluindo quatro nascentes, é de autoria da deputada estadual Ana Paula Siqueira. Assistente social formada pela PUC Minas, ela está no segundo mandato na Assembleia Legislativa de Minas Gerais — eleita em 2018 e reeleita em 2022, à época pelo partido Rede Sustentabilidade, legenda pela qual respondeu durante toda a tramitação do projeto. Antes de ser deputada, foi secretária de Participação Popular da Prefeitura de Belo Horizonte, responsável pelo Orçamento Participativo do município. Em 2025, liderou o movimento "Água sem Lucro", contrário à privatização da Copasa — a mesma companhia cujo sistema de tratamento de esgoto do Jardim Canadá está no centro da pressão sobre Fechos, descrita mais acima.

Em dezembro de 2023, o projeto dela foi aprovado em plenário, em segundo turno, por unanimidade: 57 votos a favor, nenhum contra.

A mineradora vizinha, o veto e os votos que mudaram

Antes dessa votação final, porém, houve um episódio que expõe o mesmo conflito do Vale do Sol em outra escala. Em 14 de dezembro de 2023, a Comissão de Meio Ambiente da Assembleia chegou a aprovar um texto substitutivo que incorporava sugestões do Poder Executivo, "a partir de um estudo feito pela mineradora Vale, dona da Mina Tamanduá, situada na zona de amortecimento de Fechos" — nas palavras da própria reportagem da ALMG sobre a sessão. A Mina Tamanduá é a mesma que faz divisa com o Vale do Sol. O substitutivo reduzia a área da ampliação em 45,8 hectares. O plenário rejeitou essa versão dias depois e manteve o projeto original.

Em janeiro de 2024, o governador Romeu Zema vetou integralmente a ampliação aprovada — a justificativa oficial foi que a área tem potencial para extrair 7 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, gerar cerca de mil empregos e arrecadar mais de R$ 500 milhões anuais em impostos. No mesmo mês, o governo publicou um decreto ampliando a unidade por outra via, para 853,72 hectares — mas excluindo justamente a parte do território onde ficam as principais nascentes.

O veto foi ao plenário para confirmação em 24 de abril de 2024. O placar: 40 votos para manter o veto do governador, 21 para derrubá-lo. Trinta e um deputados que tinham votado pela ampliação em dezembro mudaram de posição e passaram a votar pela manutenção do veto. A autora do projeto chamou a decisão de "um veto covarde do governador Romeu Zema que atenta à vida futura da nossa população".

Pelo registro oficial da própria Assembleia (Diário do Legislativo de 26/04/2024), votaram para manter o veto do governador — ou seja, contra a ampliação de Fechos:

  • Adriano Alvarenga (PP)
  • Alencar da Silveira Jr. (PDT)
  • Alê Portela (PL)
  • Antonio Carlos Arantes (PL)
  • Arlen Santiago (Avante)
  • Arnaldo Silva (União)
  • Bim da Ambulância (Avante)
  • Bosco (Cidadania)
  • Carlos Henrique (Republicanos)
  • Cassio Soares (PSD)
  • Charles Santos (Republicanos)
  • Coronel Henrique (PL)
  • Coronel Sandro (PL)
  • Delegado Christiano Xavier (PSD)
  • Douglas Melo (PSD)
  • Doutor Wilson Batista (PSD)
  • Dr. Maurício (Novo)
  • Duarte Bechir (PSD)
  • Eduardo Azevedo (PL)
  • Gil Pereira (PSD)
  • Grego da Fundação (PMN)
  • Ione Pinheiro (União)
  • João Junior (PMN)
  • João Magalhães (MDB)
  • Leandro Genaro (PSD)
  • Leonídio Bouças (PSDB)
  • Lud Falcão (Podemos)
  • Marli Ribeiro (PL)
  • Nayara Rocha (PP)
  • Noraldino Júnior (PSB)
  • Oscar Teixeira (PP)
  • Professor Wendel Mesquita (Solidariedade)
  • Rafael Martins (PSD)
  • Raul Belém (Cidadania)
  • Roberto Andrade (PRD)
  • Rodrigo Lopes (União)
  • Tito Torres (PSD)
  • Vitório Júnior (PP)
  • Zé Guilherme (PP)
  • Zé Laviola (Novo)

Votaram para derrubar o veto — a favor da ampliação de Fechos:

  • Ana Paula Siqueira (Rede)
  • Andréia de Jesus (PT)
  • Beatriz Cerqueira (PT)
  • Bella Gonçalves (Psol)
  • Celinho Sintrocel (PCdoB)
  • Cristiano Silveira (PT)
  • Doorgal Andrada (PRD)
  • Doutor Jean Freire (PT)
  • Elismar Prado (PSD)
  • Leleco Pimentel (PT)
  • Leninha (PT)
  • Lohanna (PV)
  • Lucas Lasmar (Rede)
  • Luizinho (PT)
  • Macaé Evaristo (PT)
  • Maria Clara Marra (PSDB)
  • Marquinho Lemos (PT)
  • Professor Cleiton (PV)
  • Ricardo Campos (PT)
  • Sargento Rodrigues (PL)
  • Ulysses Gomes (PT)

É o mesmo conflito que atravessa esta reportagem, só que dentro da própria unidade de conservação: de um lado, a proteção do manancial que abastece a região; do outro, o interesse na mineração — inclusive da mesma mineradora que já opera ao lado do Vale do Sol. O Plano Diretor de Nova Lima trata como se esse conflito não existisse.

O que ainda falta confirmar

Uma peça de honestidade: a Lei do SNUC diz que uma zona de amortecimento, uma vez formalmente definida, não pode virar zona urbana. Mas essa vedação só funciona por inteiro se a zona de amortecimento estiver delimitada por ato de criação da unidade ou por plano de manejo. A Estação Ecológica de Fechos tem plano de manejo — aprovado em 3 de janeiro de 2008, em conjunto com o Parque Estadual Serra do Rola-Moça, elaborado por equipe coordenada pela Fundação Biodiversitas com pesquisadores da UFMG e da PUC Minas. O que ainda não está confirmado publicamente é se esse plano chegou a delimitar formalmente uma zona de amortecimento — e, se delimitou, se essa faixa alcança o Vale do Sol. Um pedido de acesso à informação sobre o tema foi protocolado junto ao IEF e segue sem retorno. Mesmo sem essa confirmação, os outros comandos do SNUC — a exigência de normas do órgão gestor e a anuência prévia para infraestrutura — continuam valendo.

O PL 2723/2026 ainda está em tramitação na Câmara Municipal. Enquanto isso, a lacuna segue em aberto: nada no texto compatibiliza o zoneamento e o licenciamento do Vale do Sol com as normas do órgão gestor da Estação Ecológica, nem condiciona o adensamento do bairro à existência de rede de esgoto.

Fontes